
Os primeiros anos do Hospital Nossa Senhora do Rosário
Em 1954, as Filhas de São Camilo chegaram a Resende Costa para assumir a direção do Hospital Nossa Senhora do Rosário.
Décadas depois, em 2004, a Irmã Serafina Palarino, uma das primeiras religiosas a servir na instituição, escreveu uma carta emocionante relatando suas lembranças dessa época.
O texto a seguir, escrito em Roma, é um verdadeiro testemunho de fé, dedicação e amor à missão de cuidar dos doentes.
Memórias da Irmã Serafina Palarino
Carta escrita em Roma, 6 de junho de 2004
Filhas de São Camilo
“Com alegria e agradecimento afetuosos, procurei retornar ao tempo (1954) para lembrar o período vivido com o fervoroso e generoso povo de Resende Costa, Minas Gerais, Brasil, onde com a graça de Deus e sua Santa Mãe, a Virgem Maria, pude dar o máximo e o melhor de minha juventude para o bem dos doentes e necessitados, vivendo com eles e para eles, ajudando-os a superar no dia a dia os sofrimentos inevitáveis da vida, os quais cada pessoa deve superar.”
“Resende Costa é longe no espaço, mas muito perto do meu coração.”
“A obra de Deus se revelou cheia de graças espirituais e materiais com numerosas vocações para o alívio do sofrimento e ajuda daquele povo. Muitas vezes me vem na mente a lembrança do Padre Nélson, então pároco da Igreja mãe de Resende, que soube com o seu fervor e constante zelo apostólico, usar todos os meios para que as irmãs assumissem a obra caridosa do pequeno Hospital de Resende Costa. Os desígnios de Deus têm sempre um porquê na vida, que a pessoa deve procurar compreender e aceitar profundamente para realizá-lo.”
“Era em 1954 quando na comunidade da casa Central de São Paulo, Brasil, a Mui Revda Superiora Provincial comunica a toda comunidade a próxima fundação do Hospital de Resende Costa, convidando-nos a manifestar nosso desejo a respeito da participação direta nesta obra. O entusiasmo e o fervor de servir aos doentes fez com que muitas se oferecessem para a nova obra, mesmo sabendo das incertezas e dificuldades que encontraríamos na missão camiliana, dificuldades inevitáveis diante de um grande ato. Vendo a disponibilidade e boa vontade de todas as irmãs, fomos convidadas para manifestar nosso desejo por escrito, para depois tirar a sorte entre as candidatas dispostas a dar tudo para todos.”
“Por um mistério da obediência, a escolha caiu sobre irmã Tarcilla Gottardi (italiana), irmã Lorenzina (brasileira), irmã Serafina Palarino (argentina), irmã Savéria Graffon (alemã) que foi designada pela mui Revda Madre Geral, como superiora da nova comunidade.”
“As capacidades naturais, culturais e organizativas de irmã Savéria já eram conhecidas no Instituto e superam naquele momento as necessidades urgentes e indispensáveis de uma nova fundação, sobretudo hospitalar, com falta de recursos materiais e longe dos grandes centros.”
“A mui revda. irmã Savéria já tinha superado os problemas de responsabilidades em outras fundações, por isso sua presença foi eficaz e preciosa em muitas maneiras e ações que realizava com alegria e boa vontade e cativava a todas nós.”
“A saída de São Paulo não foi sem desapego doloroso, mas sereno e alegre na realização da vontade de Deus.”
“Deixamos a casa central de São Paulo com dez volumosos pacotes com material para o hospital desprovido de tudo e que precisava de tudo.”
“A viagem até São João del-Rei foi de trem. Longas horas nos separam do destino de nossa viagem, que procuramos percorrê-la com a oração e dialogando sobre o programa da nova missão. Em São João del-Rei nos esperavam pessoas enviadas pelo Padre Nélson para percorrer conosco o último trecho de estrada até Resende Costa, onde encontramos a praça cheia de muita gente feliz. Enquanto os sinos tocavam, a festa e os fogos de artifício rompiam o céu com muito barulho.”
“Nunca esqueci a alegria e a felicidade daquele povo bom e simples que sempre me estimularam a viver com mais fervor a caridade. Alegria esta que me acompanhou por toda a minha vida.”
“O hospital, na sua estrutura, era pequeno e reduzido para a exigência de um hospital. Era composto somente por um andar com poucos quartos onde procuramos adaptar da melhor maneira, conforme as necessidades. Entrando no hospital, à esquerda existiam os quartos para internação com 20 leitos. Ao fundo do corredor, existia uma sala revestida de azulejos brancos onde fizemos a sala de cirurgia, na qual se realizavam pequenas operações, como apendicectomia, hérnia inguinal, fístulas e cesarianas. Ao lado desta, uma sala para preparar o material para esterilização. Não faltava uma pequena farmácia onde irmã Savéria preparava xaropes, analgésicos e pomadas. As eventuais transfusões eram feitas em outros hospitais.”
“Um médico cirurgião estava sempre presente de dia e de noite, pois sua residência era próxima e tinha grande capacidade como médico e cirurgião.”
“Na parte posterior existia a cozinha a lenha e ao lado uma pequena despensa que continha o necessário para poucos dias. Era infinita a generosidade do povo de Resende Costa, em especial daqueles que possuíam fazendas e tinham muito gado.”
“À direita do hospital, sempre no mesmo andar, o Padre Nélson fez a clausura para as irmãs, cujos quartos eram separados com cortinas, e tinha também um pequeno refeitório.”
“A pequena capela, com Jesus presente no Sacrário, era o centro de nossos encontros com Ele, que nos encorajava e sustentava com sua presença de amor nos momentos difíceis e parecia dizer: ‘não tenham medo, eu estou com vocês’.”
“A nossa vida religiosa seguia o ritmo das outras casas do Instituto, oração, trabalho e apostolado, que se estendia também fora dos muros do hospital. Conforme as necessidades, éramos chamadas também para a assistência em domicílio.”
“Com o tempo, nos foi confiado também o ensino do catecismo para as crianças da paróquia e associações religiosas, para termos um contato mais direto com os jovens, em especial as filhas de Maria, das quais floresceram muitas vocações religiosas para o nosso Instituto. Da minha parte gostava de jogar com as crianças na praça para poder levá-los a Deus e à Igreja.”
“Outro apostolado pelo qual o Senhor se serviu para aproximar as almas e distanciá-las das más companhias e fantasias do mundo, foi a aula de bordado para as meninas e o teatro para os meninos, cuja renda era destinada para o hospital, para suas necessidades mais urgentes; assim oferecendo ao mesmo tempo alegria e diversões para aqueles que queriam participar.”
“Em pouco tempo, o hospital estava transformado em sua aparência e função, graças à colaboração de pessoas generosas. Com os jovens voluntários foram pintadas as paredes, com os homens de boa vontade foram reformados os colchões, ajudavam também no atendimento e cuidado dos necessitados. A providência divina nunca abandona os sofredores, dando a eles paz, serenidade e conforto.”
“A lembrança viva deste ‘pequeno pedaço de mundo’, onde o Bom Jesus se fez tão presente, possa permanecer sempre mais no coração daqueles que desejam ajudar quem sofre.”
“Depois a obediência me chamou a semear em outras partes o cristianismo. A pessoa consagrada reconhece Cristo no pobre e sofredor. ‘Aquilo que fizestes ao menor dos meus irmãos o fizestes a mim’, disse Jesus.”
Irmã Serafina Palarino (FSC)
Roma, 6 de junho de 2004